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Uma minuciosa investigação jornalística exibida pelo Fantástico, da TV Globo, trouxe à tona a teia logística e geopolítica montada para retirar do Brasil o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O parlamentar deixou o território nacional após a expedição de uma ordem do Supremo Tribunal Federal que determinava a entrega imediata de seus passaportes às autoridades policiais.
A complexa operação transfronteiriça mobilizou aviões particulares, empresas de fachada, veículos com placas diplomáticas e contou até mesmo com a presença de um ex-agente do serviço de inteligência de Israel, o Mossad. O destino final foi a Flórida, nos EUA, onde o parlamentar desembarcou sob forte esquema de proteção e silêncio institucional.
Estratégia da saída em duas frentes: do Distrito Federal à fronteira sul
Para driblar os sistemas de controle e dificultar a rastreabilidade por parte dos órgãos de fiscalização brasileiros, o plano de evasão foi executado de forma fracionada nas primeiras horas da terça-feira, 27 de outubro. O senador decolou da capital federal por volta das 5h05 a bordo de um jato executivo Cessna Citation Excel, aeronave associada à estrutura do advogado Willer Tomaz, aliado próximo do parlamentar e acusado de inúmeros crimes. O voo inicial seguiu rumo ao aeroporto de San Fernando, na região metropolitana de Buenos Aires, onde o avião pousou às 8h40. De lá, as investigações apontam que Flávio seguiu em uma segunda ligação aérea privada com destino a Puerto Iguazú, cidade argentina limítrofe com Foz do Iguaçu (PR).
Paralelamente, a esposa do parlamentar, Fernanda Bolsonaro, juntamente com as duas filhas do casal, deixava Brasília em uma segunda aeronave de pequeno porte. O grupo familiar desembarcou no município de Cascavel, no interior do Paraná. No começo da noite, às 20h02, as três embarcaram no hangar do aeroporto paranaense em um utilitário pertencente à empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda.
A checagem do endereço fiscal da referida agência de viagens pelo Fantástico junto aos bancos de dados da Receita Federal expôs inconsistências profundas: no local indicado, funciona apenas um estacionamento comercial sem qualquer relação operacional com turismo. Questionada pela reportagem da TV Globo, a administradora do espaço confirmou ter parentesco com uma das sócias formais da Dallas, limitando-se a declarar que o seu comércio era apenas o estacionamento. Em nota publicada posteriormente nas redes virtuais, a empresa negou ter prestado serviços de translado para a família do político.
Inconsistências migratórias e a controversa escolta governamental
A travessia terrestre entre o Paraná e a província de Misiones revelou indícios contundentes de adulteração e inserção de dados falsos nos sistemas de controle migratório da Argentina. Registros oficiais obtidos pela reportagem mostram que duas vans ligadas à mesma empresa de transporte cruzaram a fronteira em horários próximos naquela noite. No primeiro veículo, constavam os dados válidos de entrada da esposa e das filhas do parlamentar.
No que diz respeito a Flávio Bolsonaro, contudo, o sistema da imigração argentina registrou um fenômeno atípico: a entrada do senador foi computada três vezes em um curto intervalo de 40 minutos na mesma van. Os lançamentos ocorreram às 22h37, com o passaporte italiano, às 22h40, usando apenas a carteira de motorista, e às 23h11, ao apresentando passaporte brasileiro. As autoridades locais cancelaram as duas últimas entradas registradas com documentos brasileiros, mantendo ativa apenas a validação efetuada com a cidadania europeia.
A inconsistência ganha contornos ainda mais graves diante da principal linha de apuração dos investigadores: Flávio jamais esteve no interior daquela van. O parlamentar teria chegado a Puerto Iguazú por via aérea vindo de Buenos Aires e permanecido durante horas aguardando no interior do jato na pista do aeroporto local até a chegada de seus parentes.
Outra van que antecedeu o comboio familiar em sete minutos transportava o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre, integrante da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o cidadão israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-oficial do Mossad (serviço de inteligência de Israel). Halevy, que ostenta fotos em compromissos públicos ao lado do primeiro-ministro extremista Benjamin Netanyahu, havia ingressado no Brasil dia 19 de outubro e já registrava sucessivas viagens ao país ao longo do ano.
O jornalista argentino Nicolás Munafó, do canal de notícias C5N, testemunhou a chegada do aparato ao aeroporto de Puerto Iguazú e confirmou a presença de carros de Estado. Segundo o repórter, a comitiva contava com batedores da Polícia de Segurança Aeroportuária da Argentina, veículos com placas brasileiras e automóveis de órgãos governamentais argentinos, incluindo uma caminhonete de representação diplomática vinculada ao Ministério das Relações Exteriores da nação vizinha.
Questionamentos judiciais em Assunção e Buenos Aires e a rota internacional
A utilização de recursos e credenciais públicas argentinas para facilitar a passagem do parlamentar brasileiro deflagrou uma crise política e judicial no país vizinho. A Justiça da Argentina emitiu ordens de busca e determinou a preservação imediata de todas as gravações das câmeras de monitoramento da ponte internacional e das dependências do aeroporto de Puerto Iguazú.
Em depoimento prestado ao Fantástico, a deputada argentina Marcela Pagano confirmou ter acionado formalmente as instâncias judiciais para exigir esclarecimentos sobre as facilidades concedidas ao político brasileiro. Pagano enfatizou a gravidade da existência de irregularidades nos cartões de migração, do uso de escolta da força policial e do emprego de veículos diplomáticos sem justificativa oficial. Em contrapartida, o Secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, informou que o governo de Javier Milei não se manifestaria sobre a ocorrência.
A etapa transcontinental da fuga foi contratada junto à operadora aérea argentina Baires Fly por meio de um jato de altíssimo luxo Gulfstream G400. O proprietário da empresa de táxi aéreo, Luis Grande, revelou que o afretamento custou 150 mil dólares, algo em torno de R$ 800 mil. O pagamento foi realizado por uma intermediária sediada nos EUA através de transferência bancária internacional. Veículos da imprensa norte-americana e o jornal argentino Clarín apontaram que a contratação e a liberação do espaço aéreo em Puerto Iguazú contaram com a interferência direta de Jason Miller, estrategista e ex-assessor do presidente Donald Trump.
A aeronave decolou da Argentina na madrugada de quarta-feira, 28 de outubro, realizando uma parada técnica para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de seguir viagem rumo ao estado da Flórida. O pouso final ocorreu no Aeroporto Executivo de Opa-Locka, na região metropolitana de Miami. Em manifestações públicas, o presidente Donald Trump alegou neutralidade sobre as eleições brasileiras, enquanto o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, negou qualquer facilitação direta do governo federal nos trâmites, ressaltando que o senador possuía visto válido e teve seu ingresso autorizado dentro da legalidade.

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