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NYT: após sequestro de Maduro, governo Trump quer controlar ouro e recursos da Venezuela
Investigação do jornal detalha como administração republicana tornou Caracas prioridade da política externa
Uma investigação do New York Times (NYT) revela como a administração de Donald Trump montou um esquema para controlar a riqueza mineral da Venezuela. O jornal aponta que Trump mirava o ouro venezuelano desde que retornou ao cargo, em janeiro de 2025. Com isso, a administração republicana tornou Caracas uma prioridade de sua política externa e designou um emissário de confiança, Richard Grenell, para negociar o acesso dos EUA aos recursos. Grenell chegou a um acordo preliminar, mas as negociações fracassaram devido a divergências sobre a saída de Nicolás Maduro do poder.
Aviões transportaram ouro para fora da Venezuela antes mesmo de as empresas visitarem as minas. Parte desse ouro, segundo apurou o NYT, estaria ligada a garimpeiros que pagam supostamente propina a gangues. Ou seja, de acordo com o jornal, isso permiteria que criminosos lucrem com o principal acordo mineral do governo. E investidores norte-americanos estão aplicando recursos em uma mina ligada a mafiosos como parte de um acordo intermediado pelo governo Trump.Após a intervenção militar na Venezuela, segundo o jornal, Trump realizou uma comemoração privada no início de março, que contou também com a presença do secretário do Interior, Doug Burgum, e um empresário que levou 10 barras de ouro venezuelanas e as empilhou na Sala Roosevelt, em frente ao Salão Oval. O republicano olhou com aprovação, enquanto assessores tiravam fotos e brincavam sobre ficar com o ouro, segundo funcionários da Casa Branca ao jornal.
O NYT observa que o acordo de comércio de ouro mostra como Trump usou a captura de Maduro para obter o controle dos recursos da Venezuela. “Primeiro, ele assumiu o controle das exportações de petróleo da Venezuela. Em seguida, seu governo voltou-se para a riqueza mineral do país”, diz a reportagem.
Segundo o governo republicano e seus aliados empresariais, a venda do metal precioso beneficiaria a economia dos EUA, ajudaria a desenvolver a região mineradora da Venezuela e privaria criminosos e funcionários corruptos de renda.
Trafigura
“Durante anos, a indústria de mineração e ouro da Venezuela foi roubada do povo venezuelano e usada para sustentar gangues perigosas e apoiar agentes mal-intencionados em todo o mundo”, escreveu Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, em um comunicado. “Os Estados Unidos estão ajudando a resolver esse problema antigo. Estamos limpando a indústria de mineração da Venezuela. Empresas ocidentais estão aprimorando e legitimando-a”, acrescentou.
A partir disso, o governo Trump recorreu a líderes empresariais, entre eles Richard Holtum, diretor executivo da Trafigura, uma das maiores empresas de comércio. Segundo o NYT, foi a empresa dele que convenceu a Casa Branca a investir no ouro venezuelano. Com isso, dias após o sequestro de Maduro, o líder republicano concedeu aos executivos da Trafigura o direito de vender petróleo venezuelano, dando-lhes, segundo a empresa, uma ampla permissão confidencial para contornar as sanções.
Segundo pessoas familiarizadas com a proposta, executivos da Trafigura disseram ao NYT que o ouro venezuelano representava uma questão de segurança nacional. Eles argumentaram que a Casa Branca tinha a oportunidade de assumir o controle de uma indústria sem lei e colocar os minerais da Venezuela nas mãos do governo dos EUA e de seus parceiros — principalmente a Trafigura.
No início de março, o secretário do Interior, Doug Burgum, viajou para Caracas. Responsável por supervisionar a mineração norte-americana, ele queria deixar sua marca no projeto, segundo duas pessoas familiarizadas com as negociações. As fontes acrescentaram ao NYT que a proposta da Trafigura, antes em segundo plano em relação aos acordos petrolíferos, agora era uma prioridade.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, mostrou-se cética, segundo pessoas próximas a ela. Segundo a proposta, a receita proveniente do ouro venezuelano seria depositada em uma conta controlada pelo Tesouro dos EUA, que então distribuiria os recursos.
Dias antes da chegada de Burgum, ela concordou em permitir que a Trafigura fizesse uma parceria com a Minerven, estatal venezuelana produtora de ouro. O acordo concedeu à Trafigura, por um ano, o direito de comprar e exportar ouro das poucas minas subterrâneas industriais da Venezuela.
Em 5 de março, Burgum oficializou a assinatura do contrato e, poucas horas depois, a Trafigura enviou o primeiro carregamento de ouro para os Estados Unidos em um avião fretado. “Ao final dos dois dias, conseguimos trazer para casa US$ 100 milhões em ouro — fisicamente, o ouro”, relatou depois o secretário a investidores do setor energético.
A Trafigura e a Minerven encontraram uma solução que aparentemente isolava suas operações do crime organizado. A Trafigura compraria ouro apenas de duas minas industriais cercadas e protegidas por militares. O ouro seria extraído e processado no local, mantendo gângsteres e funcionários corruptos afastados.
No entanto, seis meses depois de a Trafigura ter começado a importar ouro venezuelano para os Estados Unidos, a empresa não conseguiu revendê-lo, segundo pessoas familiarizadas com o negócio.
Com isso, os legisladores democratas questionaram a legalidade do acordo com a Trafigura e prometeram maior fiscalização caso conquistem o controle do Congresso em novembro. Alguns no setor argumentam que os riscos de negociar com o ouro da Venezuela não são desculpa para desistir.
A reportagem do New York Times da corrida do ouro de Trump, baseia-se em entrevistas com mineradores e refinadores em El Callao, o coração da mineração venezuelana, bem como com funcionários da Casa Branca e do governo venezuelano, líderes do setor e corretores de commodities globais.
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